terça-feira, 23 de novembro de 2021

Corpo e casa

 O casal estava sentado em um ponto de ônibus, embora não parecesse que aguardasse algum coletivo. Ela com um salgado e um copo de refrigerante coberto por um guardanapo de papel. Ali perto havia uma padaria lanchonete recém-inaugurada onde certamente uma moça com aspecto de quem morava na rua não deveria ser bem-vinda. Trajava um short e uma miniblusa que deixavam à mostra uma excessiva magreza sob uma pele embaçada que escamoteava manchas e tatuagens já desbotadas.

Ele, mais velho e silencioso, deixava o corpo acomodar-se ao banco como quem fica em uma espreguiçadeira, de modo que seus chinelos empoeirados e carcomidos avançassem por parte da calçada. Parecia sonolento e preferir que a outra falasse para os dois. A moça dizia ter um apartamento mobiliado e insistia para que ele fosse até lá estar com ela e, ao perceber o olhar incrédulo do homem repetia “sim, mobiliado”, carregando no adjetivo, como se a mobília validasse a existência real do imóvel.

Estava ali um convite para o encontro de corpos, não debaixo de uma marquise em mais um dia de sol escaldante na avenida barulhenta, mas entre paredes de um apartamento mobiliado e silencioso. Também ela possuía desejos e era ele quem estava ali sem que nem procurado fosse. Não acreditava o homem que aquela que dependia da doação de um salgado e refri tivesse um corpo casa também capaz de acolher. Um corpo com atributos a oferecer e um corpo fome ao qual ele poderia ser o alimento e ao fazer isso seu corpo homem até então entregue àquele assento público se tornaria único, iluminando-se no atrito provocado pela fusão com o outro. Seu corpo voltaria a viver.

Entre uma mordida no salgado e a ingestão do refri ela insistia na existência do imóvel mobiliado e, à medida que se alimentava, mais vigor o convite incorporava e o suposto apartamento ia ganhando contornos que o homem enfim começava a enxergar. Seu corpo aos poucos ia se aprumando no banco e seu olhar antes sem direção fixava-se agora no que ela comia e estendia-se pelo corpo faminto da moça. Nesse encontro e entre o sim a chave girou e abriu-se a porta.


sexta-feira, 13 de agosto de 2021

A pandemia e os passageiros do mesmo coletivo

 Uma jovem mãe, de pé, ajeita a filha sobre o banco do ponto de ônibus. A graciosidade da criança chama a atenção. Nos cuidados maternos está o ajuste da máscara na pequena que não se opõe quando a peça é puxada para cima do nariz. Depois de dizer os adjetivos que eram verdadeiros para com a menina e que agradam a todas as mães perguntei sobre a idade.

- Fez um ano em março.

- Quando não houver mais a necessidade de máscara será que vai estranhar?

- Nasceu justamente no mês em que a pandemia começou por aqui.

A pergunta ficou assim no ar. As primeiras pessoas de máscara vistas pela Juliana devem ter sido as do momento do parto, como convém a essa ocasião. Depois, em casa, os pais, os avós, tios, amigos. Nas saídas à rua, ainda que esporádicas, senão todas as pessoas, que seria o esperado, a maioria sempre de máscara.

Dezesseis meses se passaram. É essa a idade da Juliana. Nós, os adultos, ainda tentamos interpretar a pandemia. Para a pequena isso não deve ocorrer. A terrível Covid-19 está contida em seu mundo desde sempre. Quanto a nós, o alento que nos salva são os indícios que tudo isso passará. A vacinação dá mostras de avanços e as máscaras ajudam no controle da contaminação. O que podemos dizer a você, Ju? Estamos em débito. Você nem bem aqui chegou e já paga um preço. Mesmo que não nos cobre porque não viveu o antes, nós lhe devemos a face sem máscaras. Tudo bem que os olhos continuaram à mostra e por eles nos revelamos também, mas você merece o todo e cerceá-la desse direito é reconhecer a nossa incompletude.

Ah, menina, você não vê que eu me escancaro em sorrisos ao visualizar toda a graça que me traz. De você, sei agora o nome e a idade. Conheço a sua mãe e sua avó é minha contemporânea. Por trás das máscaras, todas nós sorrimos, às vezes ficamos sérios e pressionamos os lábios, outras, simplesmente, contorcemos a boca e choramos. Um dia você visitará as fotos de sua primeira infância e se lembrará das máscaras. Recomendo uma legenda, porque o tempo não para e é provável que os acontecimentos se sobreponham e as pessoas mais velhas não estejam mais por aqui para falar sobre o que ora vivemos. Sinceramente, espero que a sua vida e de sua geração seja repleta de fases muito boas que se contraponham a este período de faces ocultas em que você chegou.

Nós, os adultos, temos essa mania de depositar nos mais jovens a esperança de que a vida há de melhorar. Um dia, outras pessoas fizeram isso conosco. Repetimos, então, essa toada, mas não é hora de repensar tudo isso? A pandemia nos fez mais iguais, iguais no medo de nos contaminarmos e, se contaminados, morrermos. Os sobreviventes trazem algum luto dessa jornada, há sempre um parente, um vizinho, um amigo que não resistiu. Precisamos mesmo, Juliana, de superar essa fase da pandemia e das máscaras, no caso destas, sobretudo, aquelas que ocultam a indiferença e o sentimento de superioridade sobre o outro. Acolhamos você, menina, e a todas as gerações para que possamos seguir juntos, como passageiros desse coletivo em que logo vamos entrar.

terça-feira, 9 de março de 2021

À espera de bolo e vinho

 

Ontem, no início da noite, fui ao supermercado e na fila do caixa, logo atrás de mim, havia um rapaz que segurava uma garrafa de vinho e um bolo de aniversário. Vi ali a iminência da alegria de outro alguém e imediatamente sugeri que ele passasse à minha frente. Penso sempre que a alegria e o bem – estar não devem ser postergados. Ele sorria e parecia estar tão confortável dentro de sua felicidade que agradeceu a oferta, preferindo manter-se na mesma posição.

Eu que não comprara nem bolo nem vinho, mas alguns cereais crus e frutas, e entre elas um melão, não desisti de ter pressa pelo moço do bolo e me afligiu que o jovem operador do caixa se mostrasse lento e atrapalhado ao procurar o preço da fruta numa sequência de tabelas. Tal era minha atenção que de mais longe enxergava o nome do melão “Dino” com seu preço promocional. Não interferi, porém, aguardava. Nessa sofreguidão, desacelerava meus impulsos. Os mais jovens precisam trilhar seus caminhos, aprendia.

Chovia fino, a noite já chegara de vez. Imaginei que em algum lugar alguém também jovem seria mais tarde surpreendido com vinho e bolo. Uma comemoração: aniversário, uma conquista recente ou um pedido de desculpas, seguido de acordo de paz com promessas que dessa vez duraria para sempre e o sempre dos jovens é todo o tempo do mundo. E se assim não fosse? Se ao chegar ao destino o moço encontrasse a porta fechada e ninguém viesse para abri-la ou, se aberta, não houvesse no outro a acolhida para o agrado, não houvesse nada mais do que cumprimentos protocolares?

Alheio a essas indagações, o rapaz persistia na fila e sua emoção fazia os seus olhos cintilarem. De fato, não lhe importava esperar. Naqueles instantes a felicidade era só sua, não comportando falas intrusas. Olhar o mundo ao redor seria ver pessoas exaustas, sem tempo nenhum para a felicidade. Inúmeros rostos cansados, indicando o desejo de chegar logo a casa, já pensando em ter de fazer o jantar e talvez com ele a marmita do dia seguinte. Nesse momento o melhor era ser visto do que ver e  eu entendia isso.