O casal estava sentado em um ponto de ônibus, embora não parecesse que aguardasse algum coletivo. Ela com um salgado e um copo de refrigerante coberto por um guardanapo de papel. Ali perto havia uma padaria lanchonete recém-inaugurada onde certamente uma moça com aspecto de quem morava na rua não deveria ser bem-vinda. Trajava um short e uma miniblusa que deixavam à mostra uma excessiva magreza sob uma pele embaçada que escamoteava manchas e tatuagens já desbotadas.
Ele, mais velho e silencioso, deixava o corpo acomodar-se ao banco como quem fica em uma espreguiçadeira, de modo que seus chinelos empoeirados e carcomidos avançassem por parte da calçada. Parecia sonolento e preferir que a outra falasse para os dois. A moça dizia ter um apartamento mobiliado e insistia para que ele fosse até lá estar com ela e, ao perceber o olhar incrédulo do homem repetia “sim, mobiliado”, carregando no adjetivo, como se a mobília validasse a existência real do imóvel.
Estava ali um convite para o encontro de corpos, não debaixo de uma marquise em mais um dia de sol escaldante na avenida barulhenta, mas entre paredes de um apartamento mobiliado e silencioso. Também ela possuía desejos e era ele quem estava ali sem que nem procurado fosse. Não acreditava o homem que aquela que dependia da doação de um salgado e refri tivesse um corpo casa também capaz de acolher. Um corpo com atributos a oferecer e um corpo fome ao qual ele poderia ser o alimento e ao fazer isso seu corpo homem até então entregue àquele assento público se tornaria único, iluminando-se no atrito provocado pela fusão com o outro. Seu corpo voltaria a viver.
Entre uma mordida no salgado e a ingestão do refri ela insistia na existência do imóvel mobiliado e, à medida que se alimentava, mais vigor o convite incorporava e o suposto apartamento ia ganhando contornos que o homem enfim começava a enxergar. Seu corpo aos poucos ia se aprumando no banco e seu olhar antes sem direção fixava-se agora no que ela comia e estendia-se pelo corpo faminto da moça. Nesse encontro e entre o sim a chave girou e abriu-se a porta.