terça-feira, 1 de novembro de 2022

Sem chuteiras

 

Era uma reunião em que o líder de uma comunidade rural solicitava à Secretária Municipal de Educação permissão para ligar os refletores do campo de futebol à rede elétrica da escola uma vez por semana. Os destinatários  eram garotos que moravam em humildes casas construídas à margem da estrada.  Casas essas que vinham aumentando, ora por meio de “puxadinhas”, ora inaugurando construções que ocupavam qualquer vão de terreno onde coubesse um cômodo que fosse, mas com capacidade de abrigar famílias inteiras.

A razão de o campo ser utilizado à noite e em dia útil da semana  era única, nos sábados e domingos,  em diferentes horários,  rapazes que moravam mais próximos desse espaço de lazer eram os titulares em usufruí-lo. Estes moravam em boas casas que faziam parte de belos terrenos com extensas plantações de café e árvores frutíferas. Era como que já tivessem herdado esse direito que passaria por todas as futuras gerações. No passado, alguém fazia questão de lembrar, um proprietário e parente havia doado o terreno para o campo, como o havia feito para a construção da igreja católica e da escola. Os demais moradores, ou os  que chegaram depois, ainda que ninguém o dissesse eram cidadãos reserva de um time na lanterna do campeonato.

A reunião ia bem e a Secretária manifestou-se favorável ao pedido. E tudo parecia simples  até que um dos representantes dos titulares chamou a atenção para um porém: o campo poderia ser utilizado desde que todos os jogadores calçassem chuteiras. Não entendi  a razão da exigência e perguntei o porquê. A  resposta me deixou tanto surpresa quanto desapontada: o contato direto dos pés no capim (nem era grama) causava falhas consideradas prejudiciais ao bom estado do capinzal – termo mais adequado que adoto   por não se tratar de gramado. Com esse espanto,  saí da reunião com a cruel certeza de que a imposição das chuteiras havia provocado mais uma rasteira nos lanternas.

Nas semanas subsequentes fiquei atenta para saber se o campo passara a ser utilizado à noite, conforme fora solicitado, mas como já até imaginava isso não aconteceu. Ah! As chuteiras! Mais uma derrota para o time da margem! Não muito tempo depois, à noite, ao passar de carro em frente às casas dos meninos, vi que eles haviam improvisado um campo na estrada. A cada vez que um veículo passava, interrompiam o jogo e se juntavam  à cerca de arame farpado que separava o caminho de um pasto para bois. Havia traves e estas eram materializadas por um chinelo de dedos a cada lado. Sem campo, sem chuteiras, o futebol resistia a seu modo. Só um lado vencia, mas o jogo continuava vivo. Os faróis dos carros eram os refletores e todos deveriam enxergar.