quarta-feira, 10 de julho de 2019

Entre loucos


Dia cheio: compromissos, família, trabalho, horário, médico, faturas a pagar. E o o banco e os seus protocolos que não funcionam. O sistema fora do ar, senha e muitas filas. Já me encontrava na terceira, com o privilégio de estar sentada; muitos em pé. Minha senha para atendimento, como a de todos os outros, era alfanumérica. Para o banco, as letras e os números significavam um código de acordo com o tipo de serviço a ser prestado; para mim, razão de angústia porque a sequência que correspondia à minha senha, não aparecia nunca no painel eletrônico, o que fazia aumentar a minha ansiedade ante a certeza de que se fora o meu tempo de almoço e certamente não deveria estar mais ali, mas no trabalho, cumprindo outros protocolos e obrigações.

Para não surtar, um pouco de conversa: com a senhora de mais de 80 que, acompanhada da filha, disse que morava em município vizinho e que estava fora de casa desde as cinco horas para fazer a prova de vida; com o rapaz sorridente e de capacete na mão que, achando que seria o próximo a ser chamado se levantara, e isso já fazia mais de quarenta minutos, e ele permanecia de pé; com a professora aposentada que disse que não tinha mais paciência e, me passando a sua senha (com código alfa diferente) foi embora… E eu ali. Nisso, uma outra narrativa, em tão de voz, ora elevada, ora branda, tomava conta de toda a sessão. Uma senhora se definia como moradora de rua e exigia prioridade extrema ou quebraria tudo. E gritava, proferindo bastantes palavrões, os mais diversos. E assim, para meu espanto, tudo funcionou para ela, sem que cumprisse um protocolo sequer. Percebia-se que desejava receber um valor e, a todo sinal da gerente que não seria possível, ela voltava a gritar. Assim, a gerente saía, entrava para o interior da sessão com os papéis nas mãos e voltava balbuciando uma resposta negativa e bastava para que a cliente começasse a xingar até que a gerente pedia para ela aguardar um pouco e então a requerente, mudava o tom e, com voz educada, dizia que ela era uma dama. E o tempo passava.

E nós outros, sentados ou em pé, em silêncio resignado, só percebíamos que o tempo passava e o painel de controle de senhas parecia congelado. Enquanto isso, a gerente já havia ido para uma outra sessão e, ao voltar dizendo qualquer coisa que negava o pedido da cliente priorizada, nova cena de gritos se instalava. Por fim, para meu espanto, atendeu-se o pedido e a mulher saiu satisfeita e vitoriosa. Lembrei-me da senha recebida da professora aposentada, de código diferente do meu e vi que de acordo com informações do painel seria a próxima a ser chamada. Quebrei o protocolo e as disciplinas dos códigos e dirigi-me ao atendente que nem se deu conta de nada disso e foi logo me atendendo. Tudo resolvido? Ainda não! Faltava-me mais uma fila. Senti-me vencida e indignada pela miséria humana dos que moram na rua e dos que moram do lado de dentro, em casas; dos que vão às repartições e dos que trabalham nelas. Um código muito mais enigmático tomou conta dos meus pensamentos e entre estes a dúvida se não estamos todos loucos.


QUANTO TEMPO DURA UMA VIDA?


Vidas vão-se embora: acidentes, crimes, doenças, causas essas que se subdividem em uma infinidade de outras. Algumas partidas chocam mais: se era pessoa conhecida, se era criança ou jovem, famoso, bonito, rico… A depender dos valores de quem olha e sente, veem-se pessoas chorando por quem nunca viu antes e em cuja homenagem oferecem flores e dedicatórias as mais emotivas, como são vistos outros que se mantêm distantes mesmo diante da partida daqueles que lhes foram bem próximos.

A mídia contribui e pode influenciar com a forma como se lida com a vida e com a morte. Tanto é assim que há aqueles que juram que não mais assistem a jornais, mas ainda me pergunto como fazem essas pessoas nas conversas com vizinhos quando desavisadamente, como deve acontecer nesses momentos, alguém noticia o que não se queria ouvir. Ou, ainda, ao acessar-se a internet, mesmo que seja rigorosamente para cuidar de trabalho e temas afins, aparecem os pop-up, assaltando os espaços da tela e convidando o usuário ao desassossego e à dor. Há, porém, o outro lado, menos desconfortável talvez, porque este tem mais a ver com a vida ou com a forma como se encontra para sobreviver, pois é justamente o convívio diário com toda a avalanche de notícias de morte, provocando a banalização do tema e, quase sempre, a indiferença a ele correspondente, que faz com que nos protejamos da dureza que é enfrentar a perda de vidas queridas.

Entretanto, em algum lugar, ignorando os manuais de uma vida feliz e bem-sucedida, há o imponderável, algo que vaza, escorregando por um canal invisível até chegar ao fundo do nosso pensamento ou, como alguns entendem, do coração. Creio que uma das formas mais intensas de se amar é ficar muito feliz ou extremamente triste diante da alegria ou da infelicidade do outro. E assim tem sido. E por ora têm chegado a mim, mais do que as minhas pobres dores, as dores alheias, de tal modo a formar uma amálgama que me impossibilita saber onde estão os limites de uma ou de outra. Tenho amado muito e não sofrido menos.

Mas é o amor que também, dia desses, poderá me surpreender, fazendo-me muito alegre. Que nesse momento eu saiba desfrutar, sem medo ou culpa, o prazer que é sentir-se bem, não importando se a motivação pertence a mim ou a outros. Serei eu, então, por algum tempo, o arauto que anuncia a vida e, com a capacidade de uma brisa suave e constante, farei com que notícias boas sejam espalhadas por todos os cantos, de modo que uma semente de esperança seja depositada no coração dos que choram. Dessa semente, um dia virão os frutos e, assim, a vida durará para sempre.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

De volta à casa da avó

Em uma visita a uma tia adoentada numa tarde quente de domingo da última primavera, cheguei à janela da cozinha onde a prima preparava o café a ser logo servido. Logo abaixo dessa janela estava o que antes era o telhado da casa de minha falecida avó. Desse extinto telhado de amianto restava agora um xadrez de ripas de madeiras vazadas até que outras telhas viessem cobri-lo novamente. Era como se da janela maior de madeira onde eu e a prima assentávamos os cotovelos outras muitas janelas menores se abrissem e foi por meio delas que visualizamos a área da casa da avó e de um casal de seus filhos, já também falecidos, que com ela moravam.

Essa área que se dividia em dois ambientes, e como todo o restante da casa, apresentava uma mobília bem pobre que combinava perfeitamente com todos nós: irmãos, netos e sobrinhos que ali se reuniam nas visitas. No primeiro ambiente, que era a entrada, havia uma parede aberta com apenas um muro baixo que servia de banco e, ao lado da porta, havia um banco de verdade, de madeira bem clara que, de muito gasta pelo tempo, já se mostrava escorregadia de tão lisa que se encontrava. Na outra metade, estava o fogão a lenha e o tanque de cimento onde a minha tia passava a maior parte do tempo, evidentemente, cumprindo a ordem do dia. Era nessa área que tanto as visitas quanto os moradores ficavam, mesmo porque o restante da casa de cinco pequenos cômodos e de pé direito baixo era excessivamente abafado.

De volta à janela, de onde eu e a prima observávamos e recordávamos a vida de cada um, surpreendi-me quando ela me disse “eu os vejo ali”: a tia, ora de cócoras fumando cigarros de palha e frequentemente tossindo, ora no tanque lavando cuidadosamente as roupas e pondo-as para corar; a vovó sempre chegando com sua vara de pesca e trazendo cada vez menos e menores peixes no embornal de brim surrado. Ela amava pescar de anzol e fez dessa prática uma forma de resistir ao cansaço dos anos que não mais lhe permitiam os trabalhos pesados; o tio, sempre calado, de menos presente e de muitos passados. Todos agora continuariam passado, não fosse a prima que os via, trazendo-os de volta. E ao assim fazer, dava-lhes vida novamente e, mais ainda, ao participar o seu olhar com mais pessoas essas vidas se tornavam presentes a todas elas que começavam a despertar em si não o que estava morto, mas o não reconhecido, como acontecia comigo nesse momento. E assim, ao vê-los novamente em movimento, pude ver que em cada gesto nosso, pessoas da mesma raiz, existia um pouco desses nossos antepassados e neles mesmos o de outros, seus ancestrais.

É nesse contínuo da vida: no brilho do olhar ou na falta dele; no silêncio ou no falar; no amar ou na dificuldade de fazê-lo que nos construímos como uma fotografia e assim, em estado de congelamento da imagem, somos vistos e quem nos olha não pode imaginar toda a aquarela na qual nos formamos. Quase sempre, esperamos o perdão e, mais difícil ainda, alcançar a capacidade de perdoar, porque, afinal, nem sempre há janelas ou, quando há, o que mais vemos é um telhado fosco, coberto pelo limo dos anos e do cansaço coletivo.