terça-feira, 9 de março de 2021

À espera de bolo e vinho

 

Ontem, no início da noite, fui ao supermercado e na fila do caixa, logo atrás de mim, havia um rapaz que segurava uma garrafa de vinho e um bolo de aniversário. Vi ali a iminência da alegria de outro alguém e imediatamente sugeri que ele passasse à minha frente. Penso sempre que a alegria e o bem – estar não devem ser postergados. Ele sorria e parecia estar tão confortável dentro de sua felicidade que agradeceu a oferta, preferindo manter-se na mesma posição.

Eu que não comprara nem bolo nem vinho, mas alguns cereais crus e frutas, e entre elas um melão, não desisti de ter pressa pelo moço do bolo e me afligiu que o jovem operador do caixa se mostrasse lento e atrapalhado ao procurar o preço da fruta numa sequência de tabelas. Tal era minha atenção que de mais longe enxergava o nome do melão “Dino” com seu preço promocional. Não interferi, porém, aguardava. Nessa sofreguidão, desacelerava meus impulsos. Os mais jovens precisam trilhar seus caminhos, aprendia.

Chovia fino, a noite já chegara de vez. Imaginei que em algum lugar alguém também jovem seria mais tarde surpreendido com vinho e bolo. Uma comemoração: aniversário, uma conquista recente ou um pedido de desculpas, seguido de acordo de paz com promessas que dessa vez duraria para sempre e o sempre dos jovens é todo o tempo do mundo. E se assim não fosse? Se ao chegar ao destino o moço encontrasse a porta fechada e ninguém viesse para abri-la ou, se aberta, não houvesse no outro a acolhida para o agrado, não houvesse nada mais do que cumprimentos protocolares?

Alheio a essas indagações, o rapaz persistia na fila e sua emoção fazia os seus olhos cintilarem. De fato, não lhe importava esperar. Naqueles instantes a felicidade era só sua, não comportando falas intrusas. Olhar o mundo ao redor seria ver pessoas exaustas, sem tempo nenhum para a felicidade. Inúmeros rostos cansados, indicando o desejo de chegar logo a casa, já pensando em ter de fazer o jantar e talvez com ele a marmita do dia seguinte. Nesse momento o melhor era ser visto do que ver e  eu entendia isso.