Estacionei o carro em frente à loja de material de construção e fiquei observando um senhor de bermuda e camisa surradas que, sentado no degrau que dava acesso a este comércio cuja entrada era marcada por duas portas de aço ainda fechadas, acompanhava os meus movimentos. Logo imaginei que a percepção dele era de alguém que facilmente havia notado a minha inexperiência na direção (prefiro não usar a palavra insegurança). Era cedo, pouco mais de sete horas do sábado e o comércio ainda estava fechado, com exceção da padaria, do armazém secos e molhados e da feira de hortifrúti. Essas lojas resumem toda a necessidade da minha rotina das manhãs de sábado, quando compro os suprimentos para levar para o consumo da semana da casa de minha mãe.
Não demorei muito para voltar ao carro e nem desejava que fosse diferente, melhor evitar o frenesi e aglomerações nas calçadas e no trânsito – a dita inexperiência sobrepunha-se a qualquer lampejo de variação de hábitos. Nada além de secos e molhados. Farmácias, lojas de loteria, de produtos para pets, de celulares, de lingeries, sapateiros e amoladores de alicate de unha convidariam, dentro de poucos minutos, seus clientes, em sua maioria adultos, puxando crianças sonolentas pelo braço. Cada um, ao seu modo, cumprindo a sua parte na coreografia desse dia da semana que, a meu ver, tem muitos de seus encantos ainda não revelados.
Quando entrava no carro, observei que o mesmo senhor mantinha-se sentado na calçada da loja. Um outro, mais velho e com ares de quem ainda desfrutava a tranquilidade de uma noite bem dormida, aproximou-se e perguntou se o madrugadeiro trabalhava na loja e ele, com a alegria daqueles que se sentem afortunados, respondeu que seria aquele o seu primeiro dia de trabalho. Eu e o outro espectador o parabenizamos e falamos palavras que em síntese significam “sucesso”. Ninguém falou em política, pandemia, desemprego, ajuda assistencial, crise, recessão, mas era isso o que sustentava o nosso previsível discurso. E o trabalhador, entusiasmado com nossa interação, continuou a falar e disse que sua profissão era chapa, que estava trabalhando em Macaé, mas viera para cá a convite. Disse isso como alguém que acabava de conquistar uma vaga em um cobiçado concurso ou de alcançar uma promoção, que tinha méritos e, em torno de seus sessenta anos, enfim, tivera-os reconhecidos.
Eu já estava dando partida no carro, quando ele bateu levemente no vidro fechado. Interrompi meu movimento e ele sorriu e disse “obrigado”. Sorri também. Acho que vou sorrir sempre que me lembrar dele que trabalha carregando sacos de cimento, ferragem, caixas de piso, tanques, pias e toda variedade de material pesado que cabe em obras e sequer recebe a dignidade de um contrato de trabalho formal. O sábado e suas horas continuariam seguindo, como um caminhão que sai cheio para as suas entregas do dia, uns olhos seguem-no secos; os meus, molhados.