sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Secos e molhados

 Estacionei o carro em frente à loja de material de construção e fiquei observando um senhor de bermuda e camisa surradas que, sentado no degrau que dava acesso a este comércio cuja entrada era marcada por duas portas de aço ainda fechadas, acompanhava os meus movimentos. Logo imaginei que a percepção dele era de alguém que facilmente havia notado a minha inexperiência na direção (prefiro não usar a palavra insegurança). Era cedo, pouco mais de sete horas do sábado e o comércio ainda estava fechado, com exceção da padaria, do armazém secos e molhados e da feira de hortifrúti. Essas lojas resumem toda a necessidade da minha rotina das manhãs de sábado, quando compro os suprimentos para levar para o consumo da semana da casa de minha mãe.

Não demorei muito para voltar ao carro e nem desejava que fosse diferente, melhor evitar o frenesi e aglomerações nas calçadas e no trânsito – a dita inexperiência sobrepunha-se a qualquer lampejo de variação de hábitos. Nada além de secos e molhados. Farmácias, lojas de loteria, de produtos para pets, de celulares, de lingeries, sapateiros e amoladores de alicate de unha convidariam, dentro de poucos minutos, seus clientes, em sua maioria adultos, puxando crianças sonolentas pelo braço. Cada um, ao seu modo, cumprindo a sua parte na coreografia desse dia da semana que, a meu ver, tem muitos de seus encantos ainda não revelados.

Quando entrava no carro, observei que o mesmo senhor mantinha-se sentado na calçada da loja. Um outro, mais velho e com ares de quem ainda desfrutava a tranquilidade de uma noite bem dormida, aproximou-se e perguntou se o madrugadeiro trabalhava na loja e ele, com a alegria daqueles que se sentem afortunados, respondeu que seria aquele o seu primeiro dia de trabalho. Eu e o outro espectador o parabenizamos e falamos palavras que em síntese significam “sucesso”. Ninguém falou em política, pandemia, desemprego, ajuda assistencial, crise, recessão, mas era isso o que sustentava o nosso previsível discurso. E o trabalhador, entusiasmado com nossa interação, continuou a falar e disse que sua profissão era chapa, que estava trabalhando em Macaé, mas viera para cá a convite. Disse isso como alguém que acabava de conquistar uma vaga em um cobiçado concurso ou de alcançar uma promoção, que tinha méritos e, em torno de seus sessenta anos, enfim, tivera-os reconhecidos.

Eu já estava dando partida no carro, quando ele bateu levemente no vidro fechado. Interrompi meu movimento e ele sorriu e disse “obrigado”. Sorri também. Acho que vou sorrir sempre que me lembrar dele que trabalha carregando sacos de cimento, ferragem, caixas de piso, tanques, pias e toda variedade de material pesado que cabe em obras e sequer recebe a dignidade de um contrato de trabalho formal. O sábado e suas horas continuariam seguindo, como um caminhão que sai cheio para as suas entregas do dia, uns olhos seguem-no secos; os meus, molhados.


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Do tamanho do céu


Os pendões pesados de cor palha assemelhavam-se aos meus cabelos loiros de cinco anos e anunciavam a colheita próxima e farta. Era o arrozal que se confundia com os limites do quintal da minha casa. Divertia-me em andar em meio à plantação, junto aos irmãos mais velhos, até que um dia eles se adiantaram e eu fiquei para trás sem encontrar a saída.

Perdendo-me assim, vivenciei a primeira grande descoberta da vida: eu e o infinito. Olhando para cima, a imensidão azul do céu e, por todos os lados, e mais altos do que eu, incontáveis pés de arroz, formando uma malha esvoaçante. Nunca mais essa imagem se separou de mim e estou certa que me acompanhará para sempre. O todo me assaltou sem que pudesse entender os caminhos para até ele chegar.

Depois de um tempo, que no relógio devem ter sido poucos minutos, mas na minha cabeça certamente durou uma vida, consegui sair e voltar a casa. O meu mundo estava de novo em seu lugar: as galinhas passeando tranquilamente no terreiro, o barulho da água que caía da bica direto no tanque, minha mãe preparando o jantar, os irmãos ocupados com outras brincadeiras, só os mais novos, porque os que tinham mais de oito anos, embora crianças, já lidavam no trabalho da roça, a outra, que ficava mais longe, no morro. Hoje, essa lembrança que não tinha o nome de trabalho infantil, dói em mim como uma embriaguez desconfortante e eterna.

Passada a colheita, a paisagem em frente a casa mudava completamente, dando lugar a uma várzea limpa, apenas com as socas do arroz que, embora mais minguadas, deveriam crescer e também produzir grãos, garantindo a porção que alimentaria a nossa família e a do patrão até a nova safra, vendendo-se o que se podia.

Isso tudo se passou há mais de meio século e nem eu e nem ninguém da minha família está mais lá. O clima e a escassez de chuvas e de água, cada vez mais frequente, não permite que se cultive arroz. No entanto, quase que cotidianamente, em meio à cidade, entre edificações que se plantam cada vez mais juntas, olho para o céu e o infinito novamente me surpreende. Eu sou um grão daquele arroz, para sempre desprendido de um pendão, o que faz com que tudo em volta seja irremediavelmente maior, exigindo-me novas saídas.





Rio Itapemirim: você tem sede de quê?


Nas ruas, e mais nas calçadas, terra e poeira que antes foram lama deixada pela enchente do Rio Itapemirim. Olhando para os quintais das casas, mais visíveis agora pela ausência dos muros derrubados pela força da água, visualiza-se muita destruição e são incontáveis os relatos daqueles que com duas palavras resumem o tamanho do estrago “Perdi tudo”. Lojas fechadas com mercadorias à porta, aguardando o recolhimento pelo serviço de limpeza urbana e, o pior, muitos comerciantes afirmam que não abrirão mais as portas.

Dizem os mais velhos que nunca antes viram tanta água transbordando do rio. E aí vem uma angústia, e o futuro? Como saber? Poderá vir outra enchente? É certo que sim. Quando? Não se sabe. Os especialistas e estudiosos da Bacia do Rio do Itapemirim são enfáticos ao dizer que o Itapemirim apenas faz seu caminho e que são as já históricas intervenções humanas as responsáveis pelas enchentes e seus danos. E a nossa cidade, não diferente das outras cortadas por um rio, nasceu e cresceu às suas margens e ali estão centenárias edificações, patrimônios históricos que se mesclam com construções mais modernas. Depois viria a expansão do território urbano para os morros, hoje cobertos por construções de norte a sul, mas o centro e o coração da cidade continuam ali, às margens do Itapemirim. Como desconstruir esse cenário? Seus atores conseguiriam encenar seus papéis senão nele? Novos tempos e reflexões. Junto ao recomeço de famílias e casas comerciais que tiveram seus bens levados pela água, há o despertar de uma consciência de uma ocupação geográfica mais sustentável e isso é bom.

É a segunda semana pós-enchente e vemos trabalhadores refazendo muros, edifícios sendo cuidadosamente lavados. Tudo comunica que há uma reconstrução em curso. E eu cá que tive o privilégio de não ter casa atingida, fico me perguntando sobre como é o recomeço no íntimo de cada um. Uma amiga que perdeu a mobília de sua casa, mesmo depois de suspendê-la a uma altura de mais de dois metros, como fazia em enchentes anteriores, está abalada e acolhida na casa da mãe que fica no andar superior do sobrado. Ela fica horas na janela olhando fixamente para o Itapemirim, temendo que suas águas subam novamente. Sinto ao olhar para os olhos dela que mesmo ciente de que com o tempo poderá comprar outros móveis, roupas e utensílios, a dor que sente é sentida agora e isso pode durar todo o tempo do seu futuro. Os despojados de plantão poderão falar na grandeza do desapego e do desprendimento, mas estes que me perdoem se minha morada espiritual é ainda a primeira e tão frágil, pois sinto que tudo aquilo que me dá suporte no cotidiano é extensão da minha vida. O banquinho de assento surrado próximo à janela da sala; a panela de alumínio com alguns amassados, mas a predileta no preparo do arroz; aquele agasalho de tecido macio que durante anos tem me servido nos nossos raros dias de inverno; no vaso com a flor-de-maio que em breve trará novo colorido à varanda; no cheiro dos panos da cadelinha Seva que dorme aos pés do sofá e os livros que ligeiramente podem ser bebidos pela água… Como ver tudo isso indo embora sem deixar que a alma fique rasgada? É razoável que a vida continue, é sinal de lucidez reconhecer que há perdas infinitamente maiores, especialmente daqueles que amargam a incomparável dor de perder vidas humanas. A estes seres extraordinários, todo o meu respeito e reverência, contudo não se pode negar que todas as vítimas desta enchente tiveram algo quebrado também dentro de si. Virá o restauro, mas ele não poderá apagar fatos: individuais, coletivos, políticos e econômicos.

A memória ou o esquecimento não podem estar a serviço das conveniências. Tanto se fala contra a cultura do efêmero, por que agora elevar perdas a esse status. A enchente do Itapemirim passou e deixará rastros na paisagem e nas pessoas e é sensato que assim seja. Quando a perda é sentida na alma, o reparo se dá gota a gota e não aos baldes. Por um bom tempo, carregaremos a poeira deixada pela enchente em nossas sapatos, respiraremos um ar mais pesado, conviveremos com portas fechadas, marcas de água em paredes e vitrines. Depois de tanta água, muita sede a ser saciada.