Era uma reunião em que o
líder de uma comunidade rural solicitava à Secretária Municipal de Educação
permissão para ligar os refletores do campo de futebol à rede elétrica da
escola uma vez por semana. Os destinatários
eram garotos que moravam em humildes casas construídas à margem da
estrada. Casas essas que vinham
aumentando, ora por meio de “puxadinhas”, ora inaugurando construções que ocupavam
qualquer vão de terreno onde coubesse um cômodo que fosse, mas com capacidade
de abrigar famílias inteiras.
A razão de o campo ser
utilizado à noite e em dia útil da semana
era única, nos sábados e domingos,
em diferentes horários, rapazes
que moravam mais próximos desse espaço de lazer eram os titulares em
usufruí-lo. Estes moravam em boas casas que faziam parte de belos terrenos com
extensas plantações de café e árvores frutíferas. Era como que já tivessem
herdado esse direito que passaria por todas as futuras gerações. No passado,
alguém fazia questão de lembrar, um proprietário e parente havia doado o
terreno para o campo, como o havia feito para a construção da igreja católica e
da escola. Os demais moradores, ou os
que chegaram depois, ainda que ninguém o dissesse eram cidadãos reserva
de um time na lanterna do campeonato.
A reunião ia bem e a
Secretária manifestou-se favorável ao pedido. E tudo parecia simples até que um dos representantes dos titulares
chamou a atenção para um porém: o campo poderia ser utilizado desde que todos
os jogadores calçassem chuteiras. Não entendi
a razão da exigência e perguntei o porquê. A resposta me deixou tanto surpresa quanto
desapontada: o contato direto dos pés no capim (nem era grama) causava falhas
consideradas prejudiciais ao bom estado do capinzal – termo mais adequado que
adoto por não se tratar de gramado. Com
esse espanto, saí da reunião com a cruel
certeza de que a imposição das chuteiras havia provocado mais uma rasteira nos lanternas.
Nas semanas subsequentes
fiquei atenta para saber se o campo passara a ser utilizado à noite, conforme
fora solicitado, mas como já até imaginava isso não aconteceu. Ah! As
chuteiras! Mais uma derrota para o time da margem! Não muito tempo depois, à
noite, ao passar de carro em frente às casas dos meninos, vi que eles haviam improvisado
um campo na estrada. A cada vez que um veículo passava, interrompiam o jogo e
se juntavam à cerca de arame farpado que
separava o caminho de um pasto para bois. Havia traves e estas eram
materializadas por um chinelo de dedos a cada lado. Sem campo, sem chuteiras, o
futebol resistia a seu modo. Só um lado vencia, mas o jogo continuava vivo. Os
faróis dos carros eram os refletores e todos deveriam enxergar.