Meu contato com a internet potencializou algumas experiências que já desenvolvia antes de sua disseminação e uma delas foi a leitura. Não demorou muito para que conhecesse escritores contemporâneos que, provavelmente, cresceram nessa rede e também não demorou muito para que me encantasse com alguns deles, encanto esse que levei para amigos que têm o hábito de ler. Escritores novos talvez não seja o termo mais adequado, na verdade, é mais do que isso: são escritores que sendo novos conseguem traduzir, por meio da palavra, o aparente caos moderno e, traduzindo-o, nos dão a mão, fazem que visualizemos florestas no deserto, silêncio na multidão e mananciais onde há o asfalto quente e enfumaçado.
Eis que numa dessas garimpagens, tive contato com textos de uma jovem escritora. O caminho percorrido que me fez chegar até eles é quase indescritível, porque foi desse jeito que a internet é, um link aqui e outro lá até chegarmos aonde um novo sentido, também desenvolvido nesse mundo “webiano” nos conduz. Dessa forma, pode-se dizer que nesse caos aparente, nem tudo é acaso e existe sim um labirinto, mas também existe um fio selecionado pelo internauta.
Além de escritora, a jovem também é professora de escrita, dá cursos nada convencionais porque o que escreve também não o é, antes, é adepta da irreverência, do inusitado e eu, já cansada na vida de minhas rotinas tão fatigadas* ensaiei uma matrícula em um desses cursos, mas faltou tempo, dinheiro e ousadia necessários para essa realização.
Contudo, houve uma alternativa, comprar um dos seus cadernos de escrita que chegaria por meio dos Correios e assim fiz os procedimentos para essa aquisição e comecei a contar os dias para que a encomenda chegasse. Dei uma semana de carência, até a me incomodar e tentar saber a causa da demora. Mandei e-mail, mensagens e as primeiras respostas tinham a ver com erro no endereço, mas mesmo depois de corrigido, o caderno não chegava. No prédio onde moro, entregavam-me faturas de banco, misteira, perfumes, sapatos, máquina de lavar…mas o caderninho, nada. Para lidar com a frustração, por um tempo, fingi não me interessar mais, passava na portaria, falava bom dia e boa noite bem rápido para não sucumbir à tentação de perguntar mais uma vez.
Depois de passados uns três meses, não resisti e pedi que olhassem no almoxarifado, quem sabe um engano, esquecimento, era algo muito esperado, nada… Passei a visitar menos o site da escritora, fiquei arisca, mas um dia não aguentei e mandei a mensagem dizendo “O caderninho nunca mais chegou”. Ela respondeu “Que loucura! Estou viajando, mas quando voltar, vou cuidar pessoalmente disso.” Abriu-se em mim novamente uma fenda de esperança. Encontrei mais textos lindos dela. Enviei como mensagem de Natal a amigos queridos. Agradou muito. De qualquer forma, mesmo não chegando o Caderninho, já me sentia extremamente grata pelo contato com tantas maravilhas a mim proporcionadas por sua bela escrita. Os escritores têm isso, a capacidade de provocar um bem enorme, o que escrevem ilumina, transforma, arrebata. Sabe-se lá o que significa isso?
Três dias após o Natal, precisamente na noite de vinte e oito de dezembro, ao voltar a casa, o porteiro antecipou-se para me entregar um envelope de papel pardo lacrado por uma fita adesiva grossa onde se lia “cuidado frágil”. Como não esperava nenhuma encomenda nesse período, fiquei logo surpresa e passei de surpresa a surpreendida, eis que havia chegado o Caderninho de Escrita tão esperado. Ao abri-lo, começaram a cair lantejoulas do pacote, anunciando o brilhantismo da autoria e das palavras por ela garimpadas. Escrever bem é isso: garimpar no idioma à procura de significados preciosos e sabemos quando os encontramos porque eles têm brilho.
O Caderninho encontra-se agora cuidadosamente guardado, mal tenho coragem de tirá-lo do envelope. Quando o faço, experimento a “Felicidade Clandestina” da menina do conto de Clarice ou a entrada de Alice no País das Maravilhas. Onde estou? Não sei mais.
*Drummond escreveu “na vida de minhas retinas tão fatigadas” .