terça-feira, 5 de abril de 2022

Eu preciso falar

 Minha mãe, em tom de muito carinho, disse que sua boneca cresceu e esse tipo de fala tem sido comum desde quando sua cabeça começou a se desconectar do mundo lógico. No dia seguinte, ao se aproximar da sua “Tiquinha” que se encontrava na cama, de bruços, disse “acho que ela morreu”. “Não, mãe! Nesse mundo em que você se inaugurou não há mortes. Ela está dormindo”. E para que não houvesse dúvida, virei-a com a barriga para cima de modo que o rosto da boneca, em permanente sorriso, pudesse vir ao encontro do nosso olhar. “Pronto, mãe, acordou.”

Minha irmã não achou uma boa ideia quando resolvi dar a boneca para minha mãe. Penso que para ela esse gesto solidificava um quadro de demência que resistíamos em aceitar. Com as mudanças do corpo de nossa matriarca, cada vez mais frágil, já havíamos introduzido a bengala, o andador e, ultimamente, a cadeira de rodas. A boneca só veio depois. Eis que funcionou. Pra dizer a verdade, foi o que verdadeiramente funcionou. De longe, observamos que ela conversa com Tiquinha que passou a ser sua interlocutora quando não há humanos por perto. Minha mãe gosta de conversar e quando não o faz, causa-nos preocupação, pois esse é um sinal de que há algo de errado com a sua saúde.

A conversa da minha mãe a que me refiro não tem nada a ver com assuntos cansativos ou problemas do mundo dos adultos quase sempre insolúveis e com os quais a maioria das pessoas se ocupam uma vida inteira. A conversa dela é uma soma de palavras que significam acolhimento e amor, então, ela fala com seus antepassados pelos quais só tem lembranças fraternas, fala com a Tiquinha que “precisa” de seus cuidados e, menos, conosco, que somos muito inconvenientes e volta e meia a resgatamos do seu mundo das delícias para incomodá-la com alimentação, banho e alguns medicamentos.

Sem o contato diário de antes, interrompido com a volta ao trabalho, sou informada de que essa rainha que tem instruído cada vez mais o meu viver, tem feito de seus dias um constante brincar. Se os pés teimam em não querer mais cumprir passos, suas mãos são incansáveis: alisam lençóis, acariciam a “Tiquinha” e são a extensão de seus intermináveis diálogos. A câmera que me confirma tudo isso são os olhos dela, esses dois raios de luz, vivos em toda sua inteireza. Deles extraio a certeza de que ela se aproxima da sua essência e assim se completa. Como a Tiquinha, seu rosto é puro sorriso.

Quem nos dera um dia chegarmos a um absoluto estado de silêncio para então ouvirmos essa prosa. Mãe, você é a nossa “Tiquinha” e não morrerá nunca.


Caminhos

 

Chamei um carro pelo aplicativo para me levar a um velório. O motorista, muito solícito, concordava com minhas ponderações bastante genéricas como “uma morte é sempre triste, ainda que possa parecer um descanso para aquele que já vem sofrendo muito com a doença, pois sempre haverá familiares e amigos que sofrerão com a perda”. No mais, falamos de assuntos cuja função era a de preencher o silêncio, esse vácuo que teimamos em eliminar a todo custo.

Passada a primeira motivação da conversa, perguntei ao motorista se há muito desempenhava essa sua profissão e ele, entusiasmado, disse que não. Já fora motoboy durante longo tempo, e como era muito competente, sempre trabalhava demais, porque os patrões confiavam nele, diferente dos outros companheiros que eram enrolados, atrasavam nas entregas e só causavam problemas. Acrescentou sua satisfação em possuir agora um carro e ser motorista de aplicativo. Disse do quanto ganhava, causando-me surpresa, pois avaliei ser um valor bem superior ao dos demais trabalhadores. Perguntei se contribuía com a previdência e, mostrando-se ainda mais atento, disse ser cadastrado como microempreendedor individual.

Somando parcelas do seu estado de contentamento, disse-me ter se casado recentemente e que a esposa cozinhava muito bem. Estava certo que precisava emagrecer, mas como resistir? Dali a pouco, faria sua hora de almoço, tiraria um cochilo até o momento de levar a enteada de quatro anos à escola, criança com quem a graça de viver só crescia. Chegando ao destino, desci do carro, levando comigo esse ar de alegria que por uns instantes me fez esquecer que iria a um velório onde encontraria pessoas sobrepujadas pela dor e cuja intensidade, ainda que em parte, meu espírito acolheria.

Já no velório, vivenciei as condolências junto a uma mãe que chorava a perda de um filho de vinte anos. Não me estendi muito, pois essa era também a minha hora de almoço e estava distante do local de trabalho. Chamei novamente o serviço do aplicativo de transporte e logo chegou um carro de cor terra meio fluorescente. O motorista se apressou em fazer reclamações “obras na rua em período inadequado, falta de dinheiro, seus credores cobravam-lhe, enquanto os devedores cujos valores em jogo, se recebidos, resolveriam as pendências, não pagavam, e simplesmente não estavam nem um pouco preocupados. Casamento? Separou-se. Ou melhor, agora era cada um em sua casa. O enteado adolescente só sabia explorar. Queria que o levasse para a escola de carro. Como assim? Para ir à casa da namorada sabia muito bem se virar. Namorada? Mais do que isso, pois dormia na casa dela. Um garoto de catorze anos. Dito de outra forma, a vida se tornara só problema.

Ouvindo essa narrativa, preparei-me para sair do carro, sem muito a dizer, mas com a certeza de que acabara de vivenciar um outro velório, ainda mais difícil que o primeiro, este, irremediavelmente triste, mas os dias passariam e, junto à saudade, as boas lembranças do filho amado acalentariam a dor, inaugurando uma vida diferente, mas viva. Enquanto no motorista em total abandono de si, essa possibilidade me parecia mais distante, pois me pareceu imerso nas tristezas que deveriam se estender até as pessoas com quem convivia. Uma tristeza que poderia durar uma vida toda, um caminhar em pleno deserto com todas as suas privações. Não gostaria de seguir essa viagem.