Os
pendões pesados de cor palha assemelhavam-se aos meus cabelos
loiros de cinco anos e anunciavam a colheita próxima e farta.
Era o arrozal que se confundia com os limites do quintal da minha
casa. Divertia-me em andar em meio à plantação,
junto aos irmãos mais velhos, até que um dia eles se
adiantaram e eu fiquei para trás sem encontrar a saída.
Perdendo-me
assim, vivenciei a primeira grande descoberta da vida: eu e o
infinito. Olhando para cima, a imensidão azul do céu e,
por todos os lados, e mais altos do que eu, incontáveis pés
de arroz, formando uma malha esvoaçante. Nunca mais essa
imagem se separou de mim e estou certa que me acompanhará para
sempre. O todo me assaltou sem que pudesse entender os caminhos para
até ele chegar.
Depois
de um tempo, que no relógio devem ter sido poucos minutos, mas
na minha cabeça certamente durou uma vida, consegui sair e
voltar a casa. O meu mundo estava de novo em seu lugar: as galinhas
passeando tranquilamente no terreiro, o barulho da água que
caía da bica direto no tanque, minha mãe preparando o
jantar, os irmãos ocupados com outras brincadeiras, só
os mais novos, porque os que tinham mais de oito anos, embora
crianças, já lidavam no trabalho da roça, a
outra, que ficava mais longe, no morro. Hoje, essa lembrança
que não tinha o nome de trabalho infantil, dói em mim
como uma embriaguez desconfortante e eterna.
Passada
a colheita, a paisagem em frente a casa mudava completamente, dando
lugar a uma várzea limpa, apenas com as socas do arroz que,
embora mais minguadas, deveriam crescer e também produzir
grãos, garantindo a porção que alimentaria a
nossa família e a do patrão até a nova safra,
vendendo-se o que se podia.
Isso
tudo se passou há mais de meio século e nem eu e nem
ninguém da minha família está mais lá. O
clima e a escassez de chuvas e de água, cada vez mais
frequente, não permite que se cultive arroz. No entanto, quase
que cotidianamente, em meio à cidade, entre edificações
que se plantam cada vez mais juntas, olho para o céu e o
infinito novamente me surpreende. Eu sou um grão daquele
arroz, para sempre desprendido de um pendão, o que faz com que
tudo em volta seja irremediavelmente maior, exigindo-me novas saídas.