Uma jovem mãe, de pé, ajeita a filha sobre o banco do ponto de ônibus. A graciosidade da criança chama a atenção. Nos cuidados maternos está o ajuste da máscara na pequena que não se opõe quando a peça é puxada para cima do nariz. Depois de dizer os adjetivos que eram verdadeiros para com a menina e que agradam a todas as mães perguntei sobre a idade.
- Fez um ano em março.
- Quando não houver mais a necessidade de máscara será que vai estranhar?
- Nasceu justamente no mês em que a pandemia começou por aqui.
A pergunta ficou assim no ar. As primeiras pessoas de máscara vistas pela Juliana devem ter sido as do momento do parto, como convém a essa ocasião. Depois, em casa, os pais, os avós, tios, amigos. Nas saídas à rua, ainda que esporádicas, senão todas as pessoas, que seria o esperado, a maioria sempre de máscara.
Dezesseis meses se passaram. É essa a idade da Juliana. Nós, os adultos, ainda tentamos interpretar a pandemia. Para a pequena isso não deve ocorrer. A terrível Covid-19 está contida em seu mundo desde sempre. Quanto a nós, o alento que nos salva são os indícios que tudo isso passará. A vacinação dá mostras de avanços e as máscaras ajudam no controle da contaminação. O que podemos dizer a você, Ju? Estamos em débito. Você nem bem aqui chegou e já paga um preço. Mesmo que não nos cobre porque não viveu o antes, nós lhe devemos a face sem máscaras. Tudo bem que os olhos continuaram à mostra e por eles nos revelamos também, mas você merece o todo e cerceá-la desse direito é reconhecer a nossa incompletude.
Ah, menina, você não vê que eu me escancaro em sorrisos ao visualizar toda a graça que me traz. De você, sei agora o nome e a idade. Conheço a sua mãe e sua avó é minha contemporânea. Por trás das máscaras, todas nós sorrimos, às vezes ficamos sérios e pressionamos os lábios, outras, simplesmente, contorcemos a boca e choramos. Um dia você visitará as fotos de sua primeira infância e se lembrará das máscaras. Recomendo uma legenda, porque o tempo não para e é provável que os acontecimentos se sobreponham e as pessoas mais velhas não estejam mais por aqui para falar sobre o que ora vivemos. Sinceramente, espero que a sua vida e de sua geração seja repleta de fases muito boas que se contraponham a este período de faces ocultas em que você chegou.
Nós, os adultos, temos essa mania de depositar nos mais jovens a esperança de que a vida há de melhorar. Um dia, outras pessoas fizeram isso conosco. Repetimos, então, essa toada, mas não é hora de repensar tudo isso? A pandemia nos fez mais iguais, iguais no medo de nos contaminarmos e, se contaminados, morrermos. Os sobreviventes trazem algum luto dessa jornada, há sempre um parente, um vizinho, um amigo que não resistiu. Precisamos mesmo, Juliana, de superar essa fase da pandemia e das máscaras, no caso destas, sobretudo, aquelas que ocultam a indiferença e o sentimento de superioridade sobre o outro. Acolhamos você, menina, e a todas as gerações para que possamos seguir juntos, como passageiros desse coletivo em que logo vamos entrar.