segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

De volta à casa da avó

Em uma visita a uma tia adoentada numa tarde quente de domingo da última primavera, cheguei à janela da cozinha onde a prima preparava o café a ser logo servido. Logo abaixo dessa janela estava o que antes era o telhado da casa de minha falecida avó. Desse extinto telhado de amianto restava agora um xadrez de ripas de madeiras vazadas até que outras telhas viessem cobri-lo novamente. Era como se da janela maior de madeira onde eu e a prima assentávamos os cotovelos outras muitas janelas menores se abrissem e foi por meio delas que visualizamos a área da casa da avó e de um casal de seus filhos, já também falecidos, que com ela moravam.

Essa área que se dividia em dois ambientes, e como todo o restante da casa, apresentava uma mobília bem pobre que combinava perfeitamente com todos nós: irmãos, netos e sobrinhos que ali se reuniam nas visitas. No primeiro ambiente, que era a entrada, havia uma parede aberta com apenas um muro baixo que servia de banco e, ao lado da porta, havia um banco de verdade, de madeira bem clara que, de muito gasta pelo tempo, já se mostrava escorregadia de tão lisa que se encontrava. Na outra metade, estava o fogão a lenha e o tanque de cimento onde a minha tia passava a maior parte do tempo, evidentemente, cumprindo a ordem do dia. Era nessa área que tanto as visitas quanto os moradores ficavam, mesmo porque o restante da casa de cinco pequenos cômodos e de pé direito baixo era excessivamente abafado.

De volta à janela, de onde eu e a prima observávamos e recordávamos a vida de cada um, surpreendi-me quando ela me disse “eu os vejo ali”: a tia, ora de cócoras fumando cigarros de palha e frequentemente tossindo, ora no tanque lavando cuidadosamente as roupas e pondo-as para corar; a vovó sempre chegando com sua vara de pesca e trazendo cada vez menos e menores peixes no embornal de brim surrado. Ela amava pescar de anzol e fez dessa prática uma forma de resistir ao cansaço dos anos que não mais lhe permitiam os trabalhos pesados; o tio, sempre calado, de menos presente e de muitos passados. Todos agora continuariam passado, não fosse a prima que os via, trazendo-os de volta. E ao assim fazer, dava-lhes vida novamente e, mais ainda, ao participar o seu olhar com mais pessoas essas vidas se tornavam presentes a todas elas que começavam a despertar em si não o que estava morto, mas o não reconhecido, como acontecia comigo nesse momento. E assim, ao vê-los novamente em movimento, pude ver que em cada gesto nosso, pessoas da mesma raiz, existia um pouco desses nossos antepassados e neles mesmos o de outros, seus ancestrais.

É nesse contínuo da vida: no brilho do olhar ou na falta dele; no silêncio ou no falar; no amar ou na dificuldade de fazê-lo que nos construímos como uma fotografia e assim, em estado de congelamento da imagem, somos vistos e quem nos olha não pode imaginar toda a aquarela na qual nos formamos. Quase sempre, esperamos o perdão e, mais difícil ainda, alcançar a capacidade de perdoar, porque, afinal, nem sempre há janelas ou, quando há, o que mais vemos é um telhado fosco, coberto pelo limo dos anos e do cansaço coletivo.