Essa
área que se dividia em dois ambientes, e como todo o restante
da casa, apresentava uma mobília bem pobre que combinava
perfeitamente com todos nós: irmãos, netos e sobrinhos
que ali se reuniam nas visitas. No primeiro ambiente, que era a
entrada, havia uma parede aberta com apenas um muro baixo que servia
de banco e, ao lado da porta, havia um banco de verdade, de madeira
bem clara que, de muito gasta pelo tempo, já se mostrava
escorregadia de tão lisa que se encontrava. Na outra metade,
estava o fogão a lenha e o tanque de cimento onde a minha tia
passava a maior parte do tempo, evidentemente, cumprindo a ordem do
dia. Era nessa área que tanto as visitas quanto os moradores
ficavam, mesmo porque o restante da casa de cinco pequenos cômodos
e de pé direito baixo era excessivamente abafado.
De
volta à janela, de onde eu e a prima observávamos e
recordávamos a vida de cada um, surpreendi-me quando ela me
disse “eu os vejo ali”: a tia, ora de cócoras fumando
cigarros de palha e frequentemente tossindo, ora no tanque lavando
cuidadosamente as roupas e pondo-as para corar; a vovó sempre
chegando com sua vara de pesca e trazendo cada vez menos e menores
peixes no embornal de brim surrado. Ela amava pescar de anzol e fez
dessa prática uma forma de resistir ao cansaço dos anos
que não mais lhe permitiam os trabalhos pesados; o tio, sempre
calado, de menos presente e de muitos passados. Todos agora
continuariam passado, não fosse a prima que os via,
trazendo-os de volta. E ao assim fazer, dava-lhes vida novamente e,
mais ainda, ao participar o seu olhar com mais pessoas essas vidas se
tornavam presentes a todas elas que começavam a despertar em
si não o que estava morto, mas o não reconhecido, como
acontecia comigo nesse momento. E assim, ao vê-los novamente em
movimento, pude ver que em cada gesto nosso, pessoas da mesma raiz,
existia um pouco desses nossos antepassados e neles mesmos o de
outros, seus ancestrais.
É
nesse contínuo da vida: no brilho do olhar ou na falta dele;
no silêncio ou no falar; no amar ou na dificuldade de fazê-lo
que nos construímos como uma fotografia e assim, em estado de
congelamento da imagem, somos vistos e quem nos olha não pode
imaginar toda a aquarela na qual nos formamos. Quase sempre,
esperamos o perdão e, mais difícil ainda, alcançar
a capacidade de perdoar, porque, afinal, nem sempre há janelas
ou, quando há, o que mais vemos é um telhado fosco,
coberto pelo limo dos anos e do cansaço coletivo.
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