terça-feira, 5 de abril de 2022

Caminhos

 

Chamei um carro pelo aplicativo para me levar a um velório. O motorista, muito solícito, concordava com minhas ponderações bastante genéricas como “uma morte é sempre triste, ainda que possa parecer um descanso para aquele que já vem sofrendo muito com a doença, pois sempre haverá familiares e amigos que sofrerão com a perda”. No mais, falamos de assuntos cuja função era a de preencher o silêncio, esse vácuo que teimamos em eliminar a todo custo.

Passada a primeira motivação da conversa, perguntei ao motorista se há muito desempenhava essa sua profissão e ele, entusiasmado, disse que não. Já fora motoboy durante longo tempo, e como era muito competente, sempre trabalhava demais, porque os patrões confiavam nele, diferente dos outros companheiros que eram enrolados, atrasavam nas entregas e só causavam problemas. Acrescentou sua satisfação em possuir agora um carro e ser motorista de aplicativo. Disse do quanto ganhava, causando-me surpresa, pois avaliei ser um valor bem superior ao dos demais trabalhadores. Perguntei se contribuía com a previdência e, mostrando-se ainda mais atento, disse ser cadastrado como microempreendedor individual.

Somando parcelas do seu estado de contentamento, disse-me ter se casado recentemente e que a esposa cozinhava muito bem. Estava certo que precisava emagrecer, mas como resistir? Dali a pouco, faria sua hora de almoço, tiraria um cochilo até o momento de levar a enteada de quatro anos à escola, criança com quem a graça de viver só crescia. Chegando ao destino, desci do carro, levando comigo esse ar de alegria que por uns instantes me fez esquecer que iria a um velório onde encontraria pessoas sobrepujadas pela dor e cuja intensidade, ainda que em parte, meu espírito acolheria.

Já no velório, vivenciei as condolências junto a uma mãe que chorava a perda de um filho de vinte anos. Não me estendi muito, pois essa era também a minha hora de almoço e estava distante do local de trabalho. Chamei novamente o serviço do aplicativo de transporte e logo chegou um carro de cor terra meio fluorescente. O motorista se apressou em fazer reclamações “obras na rua em período inadequado, falta de dinheiro, seus credores cobravam-lhe, enquanto os devedores cujos valores em jogo, se recebidos, resolveriam as pendências, não pagavam, e simplesmente não estavam nem um pouco preocupados. Casamento? Separou-se. Ou melhor, agora era cada um em sua casa. O enteado adolescente só sabia explorar. Queria que o levasse para a escola de carro. Como assim? Para ir à casa da namorada sabia muito bem se virar. Namorada? Mais do que isso, pois dormia na casa dela. Um garoto de catorze anos. Dito de outra forma, a vida se tornara só problema.

Ouvindo essa narrativa, preparei-me para sair do carro, sem muito a dizer, mas com a certeza de que acabara de vivenciar um outro velório, ainda mais difícil que o primeiro, este, irremediavelmente triste, mas os dias passariam e, junto à saudade, as boas lembranças do filho amado acalentariam a dor, inaugurando uma vida diferente, mas viva. Enquanto no motorista em total abandono de si, essa possibilidade me parecia mais distante, pois me pareceu imerso nas tristezas que deveriam se estender até as pessoas com quem convivia. Uma tristeza que poderia durar uma vida toda, um caminhar em pleno deserto com todas as suas privações. Não gostaria de seguir essa viagem.





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