terça-feira, 31 de maio de 2022

UM OLHAR PARA O KEVINN

 


Há quem prefira não falar de acontecimentos tristes. Veem assim uma forma de sentir menos dor. Mas há histórias tristes que poderiam ser evitadas  ou, quem sabe, poderiam ser menos tristes e delas não devemos jamais esquecer. Uma história bem triste é a do adolescente KEVINN BELO TOMÉ DA SILVA, de dezesseis anos, que morreu dentro de uma ambulância na frente de um hospital, após esperar por atendimento quatro horas e meia. Não, não chegou abruptamente, viera transferido de uma Unidade Básica de Saúde, após a garantia de que haveria a vaga de UTI, os equipamentos, os insumos e  a equipe médica necessária às exigências de seu quadro clínico.

Dois dias antes fora internado em uma unidade básica e seu estado foi se agravando até a conclusão de que a transferência seria necessária. A instituição de destino, na grande Vitória, atendia à sua faixa etária, diferente dos hospitais da cidade de origem onde  o Infantil só recebe  pacientes até 15 anos e os demais hospitais públicos, enfermos adultos ou com especialidades diferentes daquela que o estado do adolescente demandava. Entrevistas foram dadas na tentativa de esclarecer o que continua sendo incompreensível. A transferência e regulação do paciente é feita pela central de vagas da Secretaria de Estado da Saúde, que direciona para o hospital onde há vaga disponível – afirmou a prefeitura municipal;  a vaga e as condições existiam, garantiu a direção do hospital que não recebeu o adolescente. Os médicos da ambulância afirmaram que o estado do paciente era muito grave e, além disso, ele sofrera paradas cardíacas no trajeto que supostamente o levaria para o tratamento adequado.

 

Nada contra os protocolos e os algoritmos que compõem um sistema de saúde que  é notadamente complexo e não sobreviveria sem essas ferramentas administrativas. A questão é saber qual é o papel das pessoas que fazem parte dessa engrenagem: os recepcionistas das unidades de saúde e hospitais, os técnicos e os enfermeiros, os médicos, os motoristas da ambulância,  os farmacêuticos e os caras que vão ler a prescrição e liberar o medicamento, os bioquímicos, os doentes, os seus familiares...  A questão é lembrar que essa máquina só tem sentido se enxergar os pacientes em primeiro lugar, pois é em razão deles que toda essa engrenagem existe. Talvez eis aí a resposta – toda essa máquina é tão gigantesca que engole a si mesma, tornando o paciente um ser invisível. Essa máquina não viu o Kevinn à espera de uma vaga em uma ambulância diante da porta do hospital. A morte foi mais ágil, enxergou o Kevin primeiro e após quatro horas e meia de espera o acolheu.

 

Há inúmeros pacientes invisíveis à espera de um atendimento. Uns, fora do hospital aguardam o exame já agendado há mais de ano; outros aguardam cirurgias; se hospitalizados, também aguardam serem vistos, pois  sua identificação não passa de o nome de uma seção, um número de leito e é melhor que não esperem muito, pois lá fora há uma fila de invisíveis sonhando com uma vaga, sonhando com o dia em que seja possível  aplacar a dor, superar a doença, recuperar a saúde e pôr a vida em marcha novamente. Em seus últimos minutos de vida foi esse o desejo do Kevinn “mãe, não me deixe morrer”. Com ele, morreu seu sonho de ser um famoso jogador de futebol e, assim, vencer a pobreza e todas as barreiras que ela impõe. Morreu o menino negro e pobre de sorriso enorme e radiante, pois na sua garotice não poderia imaginar que no momento em que sua vida fosse posta em xeque ele ficaria invisível.

 

Em cima do quadro da sala de aula onde o Kevinn estudava, os colegas fixaram a foto do amigo. Outro dia, um garoto que jogava futebol com ele na quadra do bairro, parou diante do portão da casa onde o adolescente morava e o esperou  para saírem juntos – ele se esqueceu de que aquela vida se foi. As pessoas  para quem o Kevinn era visível choram a sua morte com a dor de saber que também estiveram invisíveis ao lado do menino e assim não puderam mudar sua história. A esperança é que tamanha indignação  e sofrimento se tornem luz capaz de iluminar cabeças e corações de uma sociedade muito doente que se sustenta na escuridão da máquina da indiferença, do descaso e da falta de compaixão.

 

 

 

 

 

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