Há quem prefira não falar de
acontecimentos tristes. Veem assim uma forma de sentir menos dor. Mas há
histórias tristes que poderiam ser evitadas
ou, quem sabe, poderiam ser menos tristes e delas não devemos jamais
esquecer. Uma história bem triste é a do adolescente KEVINN BELO TOMÉ DA SILVA, de dezesseis anos, que morreu dentro de
uma ambulância na frente de um hospital, após esperar por atendimento quatro
horas e meia. Não, não chegou abruptamente, viera transferido de uma Unidade
Básica de Saúde, após a garantia de que haveria a vaga de UTI, os equipamentos,
os insumos e a equipe médica necessária às
exigências de seu quadro clínico.
Dois dias antes fora internado
em uma unidade básica e seu estado foi se agravando até a conclusão de que a
transferência seria necessária. A instituição de destino, na grande Vitória,
atendia à sua faixa etária, diferente dos hospitais da cidade de origem
onde o Infantil só recebe pacientes até 15 anos e os demais hospitais
públicos, enfermos adultos ou com especialidades diferentes daquela que o estado
do adolescente demandava. Entrevistas foram dadas na tentativa de esclarecer o
que continua sendo incompreensível. A transferência e regulação do paciente é
feita pela central de vagas da Secretaria de Estado da Saúde, que direciona
para o hospital onde há vaga disponível – afirmou a prefeitura municipal; a vaga e as condições existiam, garantiu a
direção do hospital que não recebeu o adolescente. Os médicos da ambulância
afirmaram que o estado do paciente era muito grave e, além disso, ele sofrera
paradas cardíacas no trajeto que supostamente o levaria para o tratamento
adequado.
Nada contra os
protocolos e os algoritmos que compõem um sistema de saúde que é notadamente complexo e não sobreviveria sem
essas ferramentas administrativas. A questão é saber qual é o papel das pessoas
que fazem parte dessa engrenagem: os recepcionistas das unidades de saúde e
hospitais, os técnicos e os enfermeiros, os médicos, os motoristas da
ambulância, os farmacêuticos e os caras
que vão ler a prescrição e liberar o medicamento, os bioquímicos, os doentes,
os seus familiares... A questão é
lembrar que essa máquina só tem sentido se enxergar os pacientes em primeiro
lugar, pois é em razão deles que toda essa engrenagem existe. Talvez eis aí a
resposta – toda essa máquina é tão gigantesca que engole a si mesma, tornando o
paciente um ser invisível. Essa máquina não viu o Kevinn à espera de uma vaga
em uma ambulância diante da porta do hospital. A morte foi mais ágil, enxergou
o Kevin primeiro e após quatro horas e meia de espera o acolheu.
Há inúmeros pacientes
invisíveis à espera de um atendimento. Uns, fora do hospital aguardam o exame
já agendado há mais de ano; outros aguardam cirurgias; se hospitalizados,
também aguardam serem vistos, pois sua
identificação não passa de o nome de uma seção, um número de leito e é melhor
que não esperem muito, pois lá fora há uma fila de invisíveis sonhando com uma
vaga, sonhando com o dia em que seja possível
aplacar a dor, superar a doença, recuperar a saúde e pôr a vida em
marcha novamente. Em seus últimos minutos de vida foi esse o desejo do Kevinn “mãe,
não me deixe morrer”. Com ele, morreu seu sonho de ser um famoso jogador de futebol
e, assim, vencer a pobreza e todas as barreiras que ela impõe. Morreu o menino negro
e pobre de sorriso enorme e radiante, pois na sua garotice não poderia imaginar
que no momento em que sua vida fosse posta em xeque ele ficaria invisível.
Em cima do quadro da
sala de aula onde o Kevinn estudava, os colegas fixaram a foto do amigo. Outro
dia, um garoto que jogava futebol com ele na quadra do bairro, parou diante do
portão da casa onde o adolescente morava e o esperou para saírem juntos – ele se esqueceu de que
aquela vida se foi. As pessoas para quem
o Kevinn era visível choram a sua morte com a dor de saber que também estiveram
invisíveis ao lado do menino e assim não puderam mudar sua história. A
esperança é que tamanha indignação e
sofrimento se tornem luz capaz de iluminar cabeças e corações de uma sociedade
muito doente que se sustenta na escuridão da máquina da indiferença, do descaso
e da falta de compaixão.
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