Ela e eu temos nos tornado uma só pessoa. Encontro alguém que me pergunta como estou e respondo que ela está sendo cuidada e dentro do seu quadro vai bem. Há alguns dias descobri que consigo pegá-la no colo e conduzi-la a pequenas distâncias. Isso me deu tranquilidade, pois é um atributo do qual, vez ou outra, posso lançar mão, dispensando a cadeira de rodas ou a ajuda de terceiros.
Tenho a certeza de que a amo e, à medida que ela vai dependendo mais de mim, o cordão umbilical cortado há algumas décadas reconstitui-se em um processo indissolúvel. Agora eu sou a adulta e ela é a criança. Mas é uma criança não apenas porque precisa de cuidados e proteção e sim porque tem a alma e o espírito inteiramente serenos. Reclama atenção, protesta quando algo não lhe agrada e passa a maior parte do dia sorrindo e brincando com sua boneca, a Quiquinha.
Meus irmãos e eu gostamos de estar perto dela e, nas ocasiões de tempestade com trovões, o cão da casa corre até seu quarto em busca de acolhimento e sossego. Ela segue reinando sobre nós, mesmo se comunicando cada vez mais com os olhos e menos com as palavras. É prazeroso servi-la. Particularmente, quando não estou em sua presença, sinto desconforto e só ao vê-la novamente reencontro o bem-estar. Estar ao seu lado é uma experiência de contemplação, um pretensioso alcance espiritual do que seria viver no éden antes da manifestação da serpente.
No decorrer dos dias, repletos de cuidados com alimentação, banhos, remédios e curativos, o meu coração e de meus irmãos vão se nutrindo de muito amor e não menos incertezas em relação ao amanhã. O que é constância e o que é passagem? Em pequenas doses, absorvemos seus segredos dia a dia e ela tem se deixado permanecer com doçura e altivez, como quem tem a intencionalidade de nos preparar para que e tenhamos todas as condições para definitivamente não apenas trazê-la no colo, mas em todo nosso ser como fora no início. Assim, para nós, ela não partirá nunca, mas, inteiramente grávidos dela, chegará a nossa vez de dar à luz.
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