Nas
ruas, e mais nas calçadas, terra e poeira que antes foram lama
deixada pela enchente do Rio Itapemirim. Olhando para os quintais das
casas, mais visíveis agora pela ausência dos muros
derrubados pela força da água, visualiza-se muita
destruição e são incontáveis os relatos
daqueles que com duas palavras resumem o tamanho do estrago “Perdi
tudo”. Lojas fechadas com mercadorias à porta, aguardando o
recolhimento pelo serviço de limpeza urbana e, o pior, muitos
comerciantes afirmam que não abrirão mais as portas.
Dizem
os mais velhos que nunca antes viram tanta água transbordando
do rio. E aí vem uma angústia, e o futuro? Como saber?
Poderá
vir outra enchente? É certo que sim. Quando? Não se
sabe. Os especialistas e estudiosos da Bacia do Rio do Itapemirim são
enfáticos ao dizer que o Itapemirim
apenas faz seu caminho e que são as já
históricas intervenções
humanas as
responsáveis pelas enchentes e seus danos. E a nossa cidade,
não diferente das outras cortadas por um rio,
nasceu e cresceu às suas margens e ali estão
centenárias edificações, patrimônios
históricos que se mesclam com construções mais
modernas. Depois
viria a expansão do território urbano para os morros,
hoje cobertos por construções de norte a sul, mas o
centro e o coração da cidade continuam ali, às
margens do Itapemirim. Como
desconstruir esse cenário? Seus atores conseguiriam encenar
seus papéis senão nele? Novos tempos e reflexões.
Junto ao recomeço de famílias e casas comerciais que
tiveram seus bens levados pela água, há o despertar de
uma consciência de uma
ocupação
geográfica mais sustentável e isso é bom.
É
a segunda semana pós-enchente e vemos
trabalhadores refazendo muros, edifícios sendo cuidadosamente
lavados. Tudo
comunica que há uma reconstrução em curso. E eu
cá que tive o privilégio de não ter casa
atingida, fico me perguntando sobre como é o recomeço
no íntimo de cada um. Uma amiga que perdeu a mobília de
sua casa, mesmo depois de suspendê-la a uma altura de mais de
dois metros, como fazia em enchentes anteriores, está abalada
e acolhida
na casa da
mãe que fica no andar superior do sobrado. Ela
fica horas
na janela olhando fixamente para o Itapemirim,
temendo que suas águas subam novamente.
Sinto ao olhar para os olhos dela que mesmo ciente de que com o tempo
poderá
comprar outros móveis, roupas e utensílios, a dor que
sente é sentida agora e
isso pode durar todo o tempo do seu futuro.
Os despojados de plantão poderão falar na grandeza do
desapego e
do desprendimento,
mas estes
que me perdoem se
minha morada espiritual é ainda
a primeira e tão
frágil, pois sinto que tudo aquilo que me dá suporte no
cotidiano é extensão da minha vida. O banquinho de
assento surrado próximo
à janela da sala;
a panela de alumínio com alguns amassados, mas a predileta no
preparo do arroz; aquele agasalho de tecido macio que durante anos
tem me servido nos nossos raros dias de inverno; no vaso com a
flor-de-maio
que em
breve trará novo colorido à varanda; no
cheiro dos panos da cadelinha Seva que dorme aos pés do sofá
e
os livros
que ligeiramente podem ser bebidos pela água…
Como ver tudo isso indo embora sem deixar que a alma fique rasgada?
É razoável que a vida continue, é sinal de
lucidez reconhecer que há perdas infinitamente maiores,
especialmente daqueles que amargam a incomparável dor de
perder vidas humanas.
A estes seres extraordinários, todo o meu respeito e
reverência, contudo não se pode negar que todas as
vítimas desta enchente tiveram algo quebrado também
dentro de si. Virá o restauro, mas ele não poderá
apagar fatos: individuais, coletivos,
políticos e econômicos.
A
memória
ou o esquecimento não podem estar a serviço das
conveniências. Tanto se fala contra a cultura do efêmero,
por que agora elevar perdas a esse
status. A
enchente do Itapemirim passou e deixará rastros na paisagem e
nas pessoas e é sensato
que assim seja. Quando a perda é sentida na alma, o reparo se
dá gota a gota e não aos
baldes. Por
um bom tempo, carregaremos a poeira deixada pela enchente em nossas
sapatos, respiraremos um ar mais pesado, conviveremos com portas
fechadas, marcas de água em paredes e
vitrines. Depois de tanta água, muita sede a ser saciada.
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