segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Rio Itapemirim: você tem sede de quê?


Nas ruas, e mais nas calçadas, terra e poeira que antes foram lama deixada pela enchente do Rio Itapemirim. Olhando para os quintais das casas, mais visíveis agora pela ausência dos muros derrubados pela força da água, visualiza-se muita destruição e são incontáveis os relatos daqueles que com duas palavras resumem o tamanho do estrago “Perdi tudo”. Lojas fechadas com mercadorias à porta, aguardando o recolhimento pelo serviço de limpeza urbana e, o pior, muitos comerciantes afirmam que não abrirão mais as portas.

Dizem os mais velhos que nunca antes viram tanta água transbordando do rio. E aí vem uma angústia, e o futuro? Como saber? Poderá vir outra enchente? É certo que sim. Quando? Não se sabe. Os especialistas e estudiosos da Bacia do Rio do Itapemirim são enfáticos ao dizer que o Itapemirim apenas faz seu caminho e que são as já históricas intervenções humanas as responsáveis pelas enchentes e seus danos. E a nossa cidade, não diferente das outras cortadas por um rio, nasceu e cresceu às suas margens e ali estão centenárias edificações, patrimônios históricos que se mesclam com construções mais modernas. Depois viria a expansão do território urbano para os morros, hoje cobertos por construções de norte a sul, mas o centro e o coração da cidade continuam ali, às margens do Itapemirim. Como desconstruir esse cenário? Seus atores conseguiriam encenar seus papéis senão nele? Novos tempos e reflexões. Junto ao recomeço de famílias e casas comerciais que tiveram seus bens levados pela água, há o despertar de uma consciência de uma ocupação geográfica mais sustentável e isso é bom.

É a segunda semana pós-enchente e vemos trabalhadores refazendo muros, edifícios sendo cuidadosamente lavados. Tudo comunica que há uma reconstrução em curso. E eu cá que tive o privilégio de não ter casa atingida, fico me perguntando sobre como é o recomeço no íntimo de cada um. Uma amiga que perdeu a mobília de sua casa, mesmo depois de suspendê-la a uma altura de mais de dois metros, como fazia em enchentes anteriores, está abalada e acolhida na casa da mãe que fica no andar superior do sobrado. Ela fica horas na janela olhando fixamente para o Itapemirim, temendo que suas águas subam novamente. Sinto ao olhar para os olhos dela que mesmo ciente de que com o tempo poderá comprar outros móveis, roupas e utensílios, a dor que sente é sentida agora e isso pode durar todo o tempo do seu futuro. Os despojados de plantão poderão falar na grandeza do desapego e do desprendimento, mas estes que me perdoem se minha morada espiritual é ainda a primeira e tão frágil, pois sinto que tudo aquilo que me dá suporte no cotidiano é extensão da minha vida. O banquinho de assento surrado próximo à janela da sala; a panela de alumínio com alguns amassados, mas a predileta no preparo do arroz; aquele agasalho de tecido macio que durante anos tem me servido nos nossos raros dias de inverno; no vaso com a flor-de-maio que em breve trará novo colorido à varanda; no cheiro dos panos da cadelinha Seva que dorme aos pés do sofá e os livros que ligeiramente podem ser bebidos pela água… Como ver tudo isso indo embora sem deixar que a alma fique rasgada? É razoável que a vida continue, é sinal de lucidez reconhecer que há perdas infinitamente maiores, especialmente daqueles que amargam a incomparável dor de perder vidas humanas. A estes seres extraordinários, todo o meu respeito e reverência, contudo não se pode negar que todas as vítimas desta enchente tiveram algo quebrado também dentro de si. Virá o restauro, mas ele não poderá apagar fatos: individuais, coletivos, políticos e econômicos.

A memória ou o esquecimento não podem estar a serviço das conveniências. Tanto se fala contra a cultura do efêmero, por que agora elevar perdas a esse status. A enchente do Itapemirim passou e deixará rastros na paisagem e nas pessoas e é sensato que assim seja. Quando a perda é sentida na alma, o reparo se dá gota a gota e não aos baldes. Por um bom tempo, carregaremos a poeira deixada pela enchente em nossas sapatos, respiraremos um ar mais pesado, conviveremos com portas fechadas, marcas de água em paredes e vitrines. Depois de tanta água, muita sede a ser saciada.



Nenhum comentário:

Postar um comentário