segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Do tamanho do céu


Os pendões pesados de cor palha assemelhavam-se aos meus cabelos loiros de cinco anos e anunciavam a colheita próxima e farta. Era o arrozal que se confundia com os limites do quintal da minha casa. Divertia-me em andar em meio à plantação, junto aos irmãos mais velhos, até que um dia eles se adiantaram e eu fiquei para trás sem encontrar a saída.

Perdendo-me assim, vivenciei a primeira grande descoberta da vida: eu e o infinito. Olhando para cima, a imensidão azul do céu e, por todos os lados, e mais altos do que eu, incontáveis pés de arroz, formando uma malha esvoaçante. Nunca mais essa imagem se separou de mim e estou certa que me acompanhará para sempre. O todo me assaltou sem que pudesse entender os caminhos para até ele chegar.

Depois de um tempo, que no relógio devem ter sido poucos minutos, mas na minha cabeça certamente durou uma vida, consegui sair e voltar a casa. O meu mundo estava de novo em seu lugar: as galinhas passeando tranquilamente no terreiro, o barulho da água que caía da bica direto no tanque, minha mãe preparando o jantar, os irmãos ocupados com outras brincadeiras, só os mais novos, porque os que tinham mais de oito anos, embora crianças, já lidavam no trabalho da roça, a outra, que ficava mais longe, no morro. Hoje, essa lembrança que não tinha o nome de trabalho infantil, dói em mim como uma embriaguez desconfortante e eterna.

Passada a colheita, a paisagem em frente a casa mudava completamente, dando lugar a uma várzea limpa, apenas com as socas do arroz que, embora mais minguadas, deveriam crescer e também produzir grãos, garantindo a porção que alimentaria a nossa família e a do patrão até a nova safra, vendendo-se o que se podia.

Isso tudo se passou há mais de meio século e nem eu e nem ninguém da minha família está mais lá. O clima e a escassez de chuvas e de água, cada vez mais frequente, não permite que se cultive arroz. No entanto, quase que cotidianamente, em meio à cidade, entre edificações que se plantam cada vez mais juntas, olho para o céu e o infinito novamente me surpreende. Eu sou um grão daquele arroz, para sempre desprendido de um pendão, o que faz com que tudo em volta seja irremediavelmente maior, exigindo-me novas saídas.





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