quinta-feira, 9 de agosto de 2018

A não casa

Minha casa, minha vida. Tenho uma casa. Sinto que a tenho, especialmente quando abro a porta, após voltar do trabalho. Ali me encontro e encontro o que me pertence e me basta: alguns móveis, peças do vestuário, alimento  e utensílios de cozinha. Mas, no meio do caminho, até que esse momento tão esperado aconteça, passo por uma experiência diferente dessa sumária definição de casa.

Já são dezoito horas e o comércio fecha as portas. As calçadas se enchem de pessoas que voltam a casa. Muitas aproveitam essa circunstância e levam sacolas com o lanche da noite ou, da manhã seguinte. A pressa dos passos nessa hora do dia é diferente. É uma pressa para chegar, abrir a porta e encontrar familiares, o animalzinho de estimação ou simplesmente encontrar-se no seu ninho, na temperatura necessária para acolher os sentimentos mais provocados ao longo do dia.

 Eu também voltava a casa e eis que me deparei com um quarto montado na calçada. Fazia frio, o que explicava a presença de cobertores. Nesse cenário, um homem deitado e, na mesma posição, seu cão. Os dois compunham um quadro pelo qual nas noites seguintes eu, apressadamente passava, até reconhecer a minha incômoda posição de espectadora.

Uma casa na calçada é uma casa com hora para começar, neste caso, no momento em que o comércio se fecha e as ruas se silenciam; e terminar, quando na manhã seguinte, o dia recomeça, conservando a confortável indiferença dos que passam por ele. Uma casa despida de casa que revela a nudez daqueles que se fecham em portas, janelas, grades, cercas e alarmes prontos para disparar ante ao menor sinal estranho que se aproxima. O endereço desta casa é definido pelo tempo de uma noite, ao amanhecer ele não existe mais, apenas a calçada ressurge. Os moradores, despertados pelo som de buzinas, motores de veículos apressados e portas de aço que se abrem não são mais moradores, simplesmente porque não há mais casa. Há agora, porém, igualmente em um não lugar um homem e seu cachorro a espreitar-nos nas frestas de nossas frágeis portas e janelas.

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