quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Sobre roupas e bainhas

Acho que uma das piores coisas que podem acontecer para um filho que ama um pai é sair para comprar a roupa com que ele será sepultado. Convencionou-se, não sei ao certo por quê, que as pessoas devem ser enterradas com roupas boas; e os homens, de camisas sociais, ou de mangas compridas. Meu pai não tinha nem uma coisa nem outra. Seu guarda-roupa “de sair” resumia-se em uma ou duas bermudas na altura dos joelhos, uma calça comprida e duas camisas de mangas curtas. Não precisava de mais do que isso, mesmo porque quase nunca saía; todo o seu tempo era dedicado ao trabalho pesado da roça de segunda a segunda. Se folgava aos domingos, era para tirar cipó e bambu necessários na confecção de peneiras e balaios para a colheita; lascar lenhas para o fogão, amolar e pôr cabos em enxadas, machados e foices.

Quando ficou doente, muito doente, doente para morrer, não podendo nem mais plantar, nem mais colher, então as saídas para os médicos começaram a ser frequentes, mas, ainda assim, as poucas roupas bastavam. Muitas dúvidas de médicos, somadas a remédios que não curavam, revelaram gravidade, silêncio, choros e contínuas rezas. Enquanto isso, os olhos dele iam perdendo o brilho e, como faróis ao contrário, anunciavam a chegada do fim.

Já no hospital, as enfermeiras alertaram para providenciarmos as fraldas. Como assim? Não daria para esperar mais? Certamente ele não iria gostar. Sempre homem forte, autônomo, ajustando na cintura as bermudas, quando largas, com cintos de couro de boi feitos por ele mesmo... Suspiros seguidos de aceitação. Primeiro aceita-se a doença, depois os limites por ela impostos e assim, à revelia de nosso querer, a morte se impõe como sua mão pesada.

É na iminência da morte que os paradoxos da vida mais se revelam. Sepultamos o morto e despertamos verdades que seria bem melhor se adormecidas para sempre. É o facão saindo da bainha e tudo em nós corta. Definitivamente, filhos deveriam ser impedidos de comprar roupas para sepultar pais. Quando saí de casa para essa tarefa, procurei não olhar para o produto. Uma balconista conhecida cuidou de deliberar sobre tamanho, cor e preço. Alguém ainda lavou, passou e guardou em stand by. Tudo era discrição e silêncio.

Nas disfarçadas folgas dos domingos, sempre penso que todas as dores poderiam ser protegidas por bainhas, cuidadosamente costuradas, e aí todos os outros dias estariam bem guardados e protegidos das noites longas e insones que cortam os sonhos.

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