quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Chegou o outono

Sei que ela gosta de mim, sei porque sinto. Em nossa italianice das antigas não é prática verbalizar sentimentos, antes, eles se expressam por gestos, ações, cuidados. É minha mãe. Minha mãe cujo corpo frágil me surpreende por ainda suportar o mundo, me surpreende e me apavora, porque no meu amor de filha queria que ela suportasse para sempre, embora saiba que isso não é possível porque a vida é também feita de não. Uma lição dura da qual ninguém gosta, mas que nos persegue todos os dias: não ficar mais na cama quando o sono ainda está lá, não comer o doce além do que a dieta permite, não tomar muito sol, não pecar, ah! Os dez mandamentos!

Minha mãe, no seu gostar de mim, me quer por perto, sei que quer para sempre, mas todas as vezes que a visito, logo depois do almoço, começa a inquietar-se para saber como vou voltar a casa. Não tenho carro, dependo de ônibus e, como ela mora no interior, só há uma viagem após o almoço, na verdade, bem depois do almoço, no outono, combina com a hora do crepúsculo. Só que, às vezes, ele se atrasa e a noite chega e com ela a escuridão. Pronto! O que era inquietação torna-se angústia e mais de uma vez ela pergunta se eu moro muito longe do ponto, se é perigoso, se ao chegar à cidade ainda vou andar muito. Ela não é conectada a nenhuma rede social, assiste na TV apenas à programação religiosa, mas sabe que há muito perigo lá fora.

Houve uma vez, à tarde, em que recebíamos visitas e, no mexerical, em plena e alegre colheita, entre exclamações: “Nossa! Quantas!” “Como está carregado!” “Você já experimentou daquele pé ali, próximo à cerca?” “Como estão doces!”... Ela tocou no braço da visitante: “Quando você for embora, vai passar perto da casa de minha filha?” Ela pedia uma carona para mim e a resposta positiva tranquilizava o seu coração e o mundo então voltava a girar, porque tudo estava bem.

 Ai, o outono da vida, metáfora da qual grandes poetas lançaram mão! Terei eu a grandeza de minha mãe se a sua hora de partir chegar antes da minha? Deixar ir a quem se ama! Existe manifestação de amor maior? Se assim for, não se engane! Também vou querer saber se estará segura, se será bem cuidada, se não haverá perigo... Questões metafísicas de respostas tão incertas que pedem mais silêncio do que palavras...

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