Vidas vão-se
embora: acidentes, crimes, doenças, causas essas que se
subdividem em uma infinidade de outras. Algumas partidas chocam mais:
se era pessoa conhecida, se era criança ou jovem, famoso,
bonito, rico… A depender dos valores de quem olha e sente, veem-se
pessoas chorando por quem nunca viu antes e em cuja homenagem
oferecem flores e dedicatórias as mais emotivas, como são
vistos outros que se mantêm distantes mesmo diante da partida
daqueles que lhes foram bem próximos.
A mídia contribui
e pode influenciar com a forma como se lida com a vida e com a morte.
Tanto é assim que há aqueles que juram que não
mais assistem a jornais, mas ainda me pergunto como fazem essas
pessoas nas conversas com vizinhos quando desavisadamente, como deve
acontecer nesses momentos, alguém noticia o que não se
queria ouvir. Ou, ainda, ao acessar-se a internet, mesmo que seja
rigorosamente para cuidar de trabalho e temas afins, aparecem os
pop-up, assaltando os
espaços da tela e convidando o
usuário ao
desassossego e à dor.
Há, porém, o
outro lado, menos
desconfortável talvez,
porque este
tem mais a ver com a vida ou com
a forma como se encontra para
sobreviver, pois é
justamente o convívio diário com toda a avalanche de
notícias de morte, provocando a banalização do
tema e, quase sempre, a indiferença a ele correspondente, que
faz com que
nos protejamos
da dureza que é enfrentar a perda de vidas queridas.
Entretanto,
em algum lugar, ignorando os manuais de uma vida feliz e
bem-sucedida, há o
imponderável,
algo que vaza, escorregando por um canal invisível até
chegar ao fundo do nosso
pensamento ou, como alguns
entendem, do coração. Creio
que uma das formas mais intensas de se amar é ficar muito
feliz ou extremamente triste diante da alegria ou
da infelicidade
do outro. E assim tem sido. E
por ora têm chegado a mim, mais do que as minhas pobres dores,
as dores alheias, de tal modo a
formar uma amálgama que me impossibilita saber onde estão
os limites de uma ou de outra. Tenho amado muito e não sofrido
menos.
Mas é o amor que
também, dia desses, poderá me surpreender, fazendo-me
muito alegre. Que nesse momento eu saiba desfrutar, sem medo ou
culpa, o prazer que é sentir-se bem, não importando se
a motivação pertence a mim ou a outros. Serei eu,
então, por algum tempo, o arauto que anuncia a vida e, com a
capacidade de uma brisa suave e constante, farei com que notícias
boas sejam espalhadas por todos os cantos, de modo que uma semente de
esperança seja depositada no coração dos que
choram. Dessa semente, um dia virão os frutos e, assim, a vida
durará para sempre.
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