Dia
cheio: compromissos, família, trabalho, horário,
médico, faturas a pagar. E o o banco e os seus protocolos que
não funcionam. O sistema fora do ar, senha e muitas filas. Já
me encontrava na terceira, com o privilégio de estar sentada;
muitos em pé. Minha senha para atendimento, como a de todos os
outros, era alfanumérica. Para o banco, as letras e os números significavam
um código de acordo com o tipo de serviço a ser
prestado; para mim, razão de angústia porque a
sequência que correspondia à minha senha, não
aparecia nunca no painel eletrônico, o que fazia aumentar a
minha ansiedade ante a certeza de que se fora o meu tempo de almoço
e certamente não deveria estar mais ali, mas no trabalho,
cumprindo outros protocolos e obrigações.
Para
não surtar, um pouco de conversa: com a senhora de mais de 80
que, acompanhada da filha, disse que morava em município
vizinho e que estava fora de casa desde as cinco horas para fazer a
prova de vida; com o rapaz sorridente e de capacete na mão
que, achando que seria o próximo a ser chamado se levantara, e
isso já fazia mais de quarenta minutos, e ele permanecia de
pé; com a professora aposentada que disse que não tinha
mais paciência e, me passando a sua senha (com código
alfa diferente) foi embora… E eu ali. Nisso, uma outra narrativa,
em tão de voz, ora elevada, ora branda, tomava conta de
toda a sessão. Uma senhora se definia como moradora de rua e
exigia prioridade extrema ou quebraria tudo. E gritava, proferindo
bastantes palavrões, os mais diversos. E assim, para meu
espanto, tudo funcionou para ela, sem que cumprisse um protocolo
sequer. Percebia-se que desejava receber um valor e, a todo sinal da
gerente que não seria possível, ela voltava a gritar.
Assim, a gerente saía, entrava para o interior da sessão
com os papéis nas mãos e voltava balbuciando uma
resposta negativa e bastava para que a cliente começasse a
xingar até que a gerente pedia para ela aguardar um pouco e
então a requerente, mudava o tom e, com voz educada, dizia que
ela era uma dama. E o tempo passava.
E
nós outros, sentados ou em pé, em silêncio
resignado, só percebíamos que o tempo passava e o
painel de controle de senhas parecia congelado. Enquanto isso, a
gerente já havia ido para uma outra sessão e, ao voltar
dizendo qualquer coisa que negava o pedido da cliente priorizada,
nova cena de gritos se instalava. Por fim, para meu espanto,
atendeu-se o pedido e a mulher saiu satisfeita e vitoriosa.
Lembrei-me da senha recebida da professora aposentada, de código
diferente do meu e vi que de acordo com informações do
painel seria a próxima a ser chamada. Quebrei o protocolo e as
disciplinas dos códigos e dirigi-me ao atendente que nem se
deu conta de nada disso e foi logo me atendendo. Tudo resolvido?
Ainda não! Faltava-me mais uma fila. Senti-me vencida e
indignada pela miséria humana dos que moram na rua e dos que
moram do lado de dentro, em casas; dos que vão às
repartições e dos que trabalham nelas. Um código
muito mais enigmático tomou conta dos meus pensamentos e entre
estes a dúvida se não estamos todos loucos.
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