quinta-feira, 9 de agosto de 2018

O menino, o sorriso e a bicicleta

Ele chegou em sua pequena bicicleta verde, em pé sobre um dos pedais  e com o sorriso iluminador. Logo deixou claro que aquela bicicleta era sua riqueza, seu tesouro, parte mesmo inseparável do seu ser. Leiga no assunto, até então não imaginava que uma bicicleta assim, pequena e toda desprovida de acessórios pudesse ter tanto valor. Estacionou-a  no fundo da sala de aula e esse movimento repetiu-se até o dia em que o coordenador de turno interveio e proibiu, afinal não tinha cabimento! Eu adiara qualquer iniciativa nesse sentido, pois faltava-me coragem de separar a parte do todo assim tão abruptamente.

Depois de muita conversa, ele e o coordenador deliberaram que não no bicicletário, lá fora, longe dos olhos, mas no pátio interno, próximo às salas de aula, a bicicleta também ficaria segura e então o sorriso voltou a brilhar em seu rosto e, atendido esse critério indispensável para que pudesse voltar a sua atenção para a aula, dirigiu-se para a sala. O menino negro, a bicicleta verde e o sorriso iluminador eram inseparáveis. Um dia, porém, ele mudou: não falou, nem sorriu. Perguntei a razão do silêncio, respondeu-me que morrera um de seus irmãos. Foi a minha vez de silenciar-me e ele explicou que se tratava de um aborto involuntário, seria o nono irmão. Não morava mais com a mãe, nem mesmo mantinha contato com ela, pois na separação do casal, ficou com o pai, mas de longe sabia que ela, em novo relacionamento, esperava mais um filho e ele já amava esse irmão que nem chegou a nascer. O pai já estivera preso por roubo, mas agora trabalhava como ajudante de caminhão e, ressaltou, atualmente tudo o que entrava  em sua casa tinha nota fiscal.

 Nas aulas de leitura na biblioteca, procurava livros em espanhol, arriscava mesmo a se comunicar nessa língua e eu me perguntava o porquê dessa preferência, mas nunca cheguei à resposta. Estava diante de um aluno diferente. Deveria ter uns quinze anos e, todas as noites, após o intervalo para o lanche, escovava os dentes. Trouxera esse hábito da escola infantil? E como eram brancos os seus dentes! Um aluno que eu via, mas como tantos outros vivia na invisibilidade, também eu, entre os demais professores, era invisível. Que futuro o esperava? Essa dúvida me angustiava e uma vez perguntei-lhe sobre suas pretensões profissionais, prontamente, disse-me que queria trabalhar na polícia federal.

Aos poucos, eu ia compondo o seu retrato e nele o medo de acontecer algo que pudesse apagar aquele sorriso iluminador. Depois de alguns meses, ele começou a se atrasar. Quando chegava à sala de aula, já havia se passado ao menos meia hora, isso porque podia contar com a sua poderosa bike que, conforme me explicou, ele mesmo havia montado aos poucos: o quadro e o guidão eram importados e sempre que podia ia substituindo as peças desse maravilhoso quebra-cabeças de duas rodas. O motivo do atraso era o novo trabalho de que se orgulhava muito: havia se empregado em um lavador de carros onde só pessoas importantes levavam seus veículos: empresários, advogados, médicos.

Fiquei pensando na sua simplicidade em ficar feliz por lavar carros de gente rica. Ele que sonhava em passar em concurso público federal e mal conseguia chegar a tempo de assistir às aulas no curso noturno. Esse pensamento foi me consumindo porque com ele vieram tantos outros: quantas pessoas que nunca conseguiram realizar seus sonhos profissionais! Pilotos que não foram pilotos; cientistas que não foram cientistas, artistas que não foram artistas, atletas que passaram longe das medalhas. O mundo está cheio de pessoas assim, invisíveis. Por outro lado, há médicos que nem queriam tanto ser médicos, professores que seriam mais felizes fazendo outra coisa e quem anda fazendo outra coisa poderia ter se realizado como professor. O menino e o sorriso de bicicleta estão indo por aí, entre subidas e descidas. Oxalá consigam ser vistos!

Um comentário:

  1. Luciane, obrigada por compartilhar seus belos textos, fruto da sua sensibilidade e visão de mundo. Beijos, Valéria

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