Quando
ficou doente, muito doente, doente para morrer, não podendo
nem mais plantar, nem mais colher, então as saídas
para os médicos começaram a ser frequentes, mas, ainda
assim, as poucas roupas bastavam. Muitas dúvidas de médicos,
somadas a remédios que não curavam, revelaram
gravidade, silêncio, choros e contínuas rezas. Enquanto
isso, os olhos dele iam perdendo o brilho e, como faróis ao
contrário, anunciavam a chegada do fim.
Já
no hospital, as enfermeiras alertaram para providenciarmos as
fraldas. Como assim? Não daria para esperar mais? Certamente
ele não iria gostar. Sempre homem forte, autônomo,
ajustando na cintura as bermudas, quando largas, com cintos de couro
de boi feitos por ele mesmo... Suspiros seguidos de aceitação.
Primeiro aceita-se a doença, depois os limites por ela
impostos e assim, à revelia de nosso querer, a morte se impõe
como sua mão pesada.
É
na iminência da morte que os paradoxos da vida mais se revelam.
Sepultamos o morto e despertamos verdades que seria bem melhor se
adormecidas para sempre. É o facão saindo da bainha e
tudo em nós corta. Definitivamente, filhos deveriam ser
impedidos de comprar roupas para sepultar pais. Quando saí de
casa para essa tarefa, procurei não olhar para o produto. Uma
balconista conhecida cuidou de deliberar sobre tamanho, cor e preço.
Alguém ainda lavou, passou e guardou em stand by. Tudo
era discrição e silêncio.
Nas
disfarçadas folgas dos domingos, sempre penso que todas as
dores poderiam ser protegidas por bainhas, cuidadosamente costuradas,
e aí todos os outros dias estariam bem guardados e protegidos
das noites longas e insones que cortam os sonhos.
Você devotou ao seu pai todo amor e admiração que uma filha pode oferecer.
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